quinta-feira, 4 de junho de 2009

Cesário Verde



“Além de ser uma réplica do realismo irónico queirosiano (…), o realismo lírico de Cesário Verde será o seu esforço de autenticidade, anti-retoricista, com versos magistrais, salubres e sinceros.”






José Joaquim Cesário Verde nasceu dia 25 de Fevereiro de 1855 em Lisboa.
Matriculou-se no curso de Letras da Universidade de Lisboa, mas desistiu, indo trabalhar para a loja de ferragens que seu pai tinha na Rua dos Bacalhoeiros. Começou a publicar poesias no Diário de Notícias, no Diário da Tarde, no Ocidente, entre outros. Adoecendo gravemente, fixa-se na quinta da família em Linda-a-Pastora.
Morreu tuberculoso aos 31 anos, foi graças aos esforços do seu amigo Silva Pinto que as suas poesias são postumamente publicadas em volume com o título O Livro de Cesário Verde (1887).
Cesário preocupava-se com a vida das pessoas, com o trabalho precário, com as condições deploráveis de sobrevivência a que muitos tinham de se submeter daí o surgimento de uma frase “Eu não sou como muitos que estão no meio de um grande ajuntamento de gente e completamente isolados e abstractos. A mim o que me rodeia é o que me preocupa.”
O contraste cidade/campo é um dos temas fundamentais da poesia de Cesário e revela-nos o seu amor ao rústico e natural, que celebra por oposição a um certo repúdio da perversidade e dos valores urbanos a que, no entanto, adere. O poeta preferia o campo à cidade uma vez que na cidade surgem a íntima relação com a poluição, a prisão, a opressão, a doença e a morte, preferindo o campo que surge como espaço puro e natural, sinónimo de liberdade, de fertilidade, de saúde e de vida.

-A cidade personifica a ausência de amor e, consequentemente, de vida. Ela surge como uma prisão que desperta no sujeito “um desejo absurdo de sofrer”. É um foco de infecções, de doença, de MORTE. É um símbolo de opressão, de injustiça, de industrialização, e surge, por vezes, como ponto de partida para evocações, divagações.

- O campo, por oposição, aparece associado à vitalidade, à alegria do trabalho produtivo e útil, nunca como fonte de devaneio sentimental. Aparece ligado à fertilidade, à saúde, à liberdade, à VIDA. A força inspiradora de Cesário é a terra-mãe, daí surgir o mito de Anteu, uma vez que a terra é força vital para Cesário. O poeta encontra a energia perdida quando volta para o campo, anima-o, revitaliza-o, dá-lhe saúde, tal como Anteu era invencível quando estava em contacto com a mãe-terra.
O campo é, para Cesário, uma realidade concreta, observada tão rigorosamente e descrita tão minuciosamente como a própria cidade o havia sido: um campo em que o trabalho e os trabalhadores são parte integrante, um campo útil onde o poeta se identifica com o povo (Petiz). É no poema Nós que Cesário revela melhor o seu amor ao campo, elogiando-o por oposição à cidade e considerando-o “um salutar refúgio”.

A oposição cidade/campo conduz simbolicamente à oposição morte/vida. É a morte que cria em Cesário uma repulsa à cidade por onde gostava de deambular mas que acaba por aprisioná-lo.
Quanto á sua questão social, o poeta coloca-se ao lado dos desfavorecidos, dos injustiçados, dos marginalizados e admira a força física, a pujança do povo trabalhador.
O poeta interessa-se pelo conflito social do campo e da cidade, procurando documentá-lo e analisá-lo, embora sem interferir.
- Anatomia do homem oprimido pela cidade
-Integração da realidade comezinha no mundo poético

O Impressionismo adaptado ao Real.
“A mim o que me preocupa é o que me rodeia”.
A poesia do quotidiano despoetiza o acto poético, daí que a sua poesia seja classificada como prosaica, concreta. O poeta pretende captar as impressões que os objectos lhe deixam através dos sentidos.
Ao vaguear, ao deambular, o poeta percepciona a cidade e o “eu” é o resultado daquilo que vê.
Cesário não hesita em descrever nos seus poemas ambientes que, segundo a concepção da poesia, não tinham nada de poético.
Cesário não só surpreende os aspectos da realidade como sabe perfeitamente fazer uma reflexão sobre as personagens e certas condições.
A representação do real quotidiano é, frequentemente, marcada pela captação perfeita dos efeitos da luz e por uma grande capacidade de fazer ressaltar a solidez das formas (visão objectiva), embora sem menosprezar uma certa visão subjectiva – Cesário procura representar a impressão que o real deixa em si próprio e às vezes transfigura a realidade, transpondo-a numa outra.


Na altura do Modernismo, Cesário Verde foi considerado o mestre dos poetas que se seguiram à sua época, estando muito próximo dos poetas franceses.
Por influência de Baudelaire e dos naturalistas franceses, Cesário procura pintar “quadros por letras, por sinais”, criando uma pintura literária e rítmica de temas comuns e realidades banais.
A poesia de Cesário reflecte a crise do Naturalismo e o desencanto pela estética realista. O poeta empenhe-se no real, é certo, porém a instância da visão subjectiva é marcante ao ponto de fazer vacilar a concepção de Cesário Verde como poeta realista.
A realidade é mediatizada pelo olhar do poeta, que recria, a partir do concreto, uma super-realidade através da imaginação transfiguradora, metamorfoseando o real num processo de reinvenção ou recontextualização precursora da estética surrealista.
Quanto à sua Linguagem e estilo Cesário Verde é caracterizado pela utilização do Parnasianismo que é a busca da perfeição formal através de uma poesia descritiva e fazendo desta algo de escultórico, esculpindo o concreto com nitidez e perfeição. O parnasianismo é também a necessidade de objectivar ou despersonalizar a poesia e corresponde à reacção naturalista que aparece no romance. Os temas desta corrente literária são temas do quotidiano com um enorme rigor a nível de aspecto formal e há uma aproximação da poesia às artes plásticas, nomeadamente a nível da utilização das cores e dos dados sensoriais.
Através deste parnasianismo ele propõe uma explicação para o que observa com objectividade e, quando recorre à subjectividade, apenas transpõe, pela imaginação transfiguradora, a realidade captada numa outra que só o olhar de artista pode notar.
Cesário utiliza também uma linguagem prosaica, ou seja, aproxima-se da prosa e da linguagem do quotidiano.
A obra de Cesário caracteriza-se também pela técnica impressionista ao acumular pormenores das sensações captadas e pelo recurso às sinestesias, que lhe permitem transmitir sugestões e impressões da realidade.






A nível morfossintáctico recorre à expressividade verbal, à adjectivação abundante, rica e expressiva, por vezes em hipálage, ao colorido da linguagem e tem uma tendência para as frases curtas.

-Vocabulário concreto
-Linguagem coloquial
-Predomínio do uso do decassílabo e do Alexandrino
-Uso do assíndeto que resulta da técnica de justaposição de várias percepções
-Técnica descritiva assente em sinestesias, hipálages, na expressividade do advérbio, no uso do diminutivo e na utilização da ironia como forma de cortar o sentimentalismo (equilibrar).

Eça utiliza uma linguagem desprovida da erudição que caracterizava o Ultra-Romantismo, revestindo-se de termos e construções sintácticas correntes, mas rigorosas. O Naturalismo deve ser o retrato fiel da realidade, estando sempre associado ao Realismo. Cesário na sua poesia, poesia essa designada poesia pictórica, preocupa-se com o pormenor, para ele na pintura não há contorno, nem precisão. Para ele existe sim uma multiplicidade (Cesário preocupa-se com a multiplicidade, de maneira que esta seja informativa, ou seja, coisas que nos possam suscitar mais ou menos importância) de coisas que compõem um quadro (como pudemos observar na foto exibida na aula). Cesário Interessa-se pelo conflito social do campo e da cidade, procurando comentá-lo e analisá-lo, embora sem a intensidade da dissecação naturalista.
Nos seus poemas Cesário utiliza um discurso anti-retoricista, sendo a retórica a arte de bem falar, e de enganar, o discurso de Cesário revela o contrário desta doutrina, o discurso de Cesário é pouco burilado, o autor revela uma intenção, mas não o faz sendo esse o esforço de autenticidade. Revela com os seus textos aquilo que vê, este não é crítico, coisa que Eça é.
Quando Cesário refere que os versos são salubres e sinceros quer dizer que estes são limpos de espírito e revelam alguma confusão que o autor se ausenta da sua produção artística, é sincero a nível de visão, tudo o que ele se apercebe através do seu primeiro olhar, do seu primeiro momento sensorial na poesia. Na pintura nem sempre o conseguimos alcançar, existe um escalunamento dos sentidos, ao contrário da pintura, na poesia podemos falar de outros níveis tais como o olfacto, o tacto e etc.




Análise às fotos da aula:

Nas duas fotos exibidas na aula observamos a mesma imagem, com a diferença de que numa ser de dia e a outra ser de noite.
Na primeira Cesário apresenta pormenores, neste caso muito movimento, carros, pessoas, uma imensidão, sendo o elemento em destaque são as carruagens e os coupês. Este autor é precursor do Modernismo, ele vê neste quadro que a sociedade está em desenvolvimento.
Na segunda foto existe a noite é bastante iluminada pela imensidão de candeeiros existentes, para ele era considerado um ciclo de progressão, para outros algo de muito diabólicos, a estes podemos chamar de ignorantes.
Sintese
Influências literárias e linguagem na poesia de Cesário Verde
Realismo/Naturalismo
•Visão crítica, objectiva e minuciosa com rigor e precisão.
•Profunda reflexão sobre a realidade da sua época.
•Linguagem com termos concretos e técnicos.
Parnasianismo
•Visão objectiva da realidade.
•Linguagem exacta e precisa, com rigor formal.
•Descrição dos aspectos quotidianos vulgares, que através deste tipo de linguagem ascendem a um nível poético.
Impressionismo
•Olha subjectivo filtrados pelas suas percepções, ou seja, pelo que captou do real.
•Surgem imagens extremamente visuais, onde o físico e o moral se misturam, despertando uma série de sensações.




Modernismo
•Tratamento poético do operariado, do trabalho citadino e rural, dos contrastes sociais.
•Valorização dos sentidos, da objectividade e do rigor na sua poesia.
•Associação de ideias através de imagens metafóricas.
•Visão pessimista da realidade.
•Surrealismo e Simbolismo –tédio, desilusão, repúdio pelo lirismo romântico, imagens com valor simbólico, linguagem concreta e tratamento musical e prosódico.

quinta-feira, 26 de março de 2009



Sintra e o seu Encanto

Sintra, Sintra era o local onde todos iam, uns por pura diversão, outros apenas para respirar o ar de Sintra e ainda outros como Carlos à procura de uma senhora alta e esbelta que despertava interesse em qualquer um, senhora essa por quem Carlos ficou encantado.
Carlos procurava essa senhora por quem estava encantado, não sabia no entanto que se tratava de Maria Eduarda sua irmã.
Certo dia Carlos foi a Sintra com Cruges para lhe mostrar o quanto encantadora era aquela bela cidade, dar-lhe a conhecer Sintra, Cruges tal como todos ficou encantado com a cidade.
Quem ia a Sintra passava sempre pelo belo Hotel, hotel esse onde se encontravam espanholas dispostas a brincadeiras, quando Carlos e Cruges chegaram estava lá Euzébiozinho e Palma, Carlos ia simplesmente dormir ao hotel, já Euzébiozinho ia frequentemente a Sintra visitar a Conchita (espanhola), nesse mesmo dia Lolita (espanhola) espalhou sorrisos a Carlos mas este não lhe deu resposta, uma vez que o seu objectivo era encontrar Maria Eduarda.
Carlos encontrou se com Alencar, escritor e poeta, este convidou Carlos e Cruges para irem até ao hotel de Lawrence, hotel esse que era muito frequentado por Alencar, aí beberam café e pernoitaram a jogar às cartas.
Sintra é então o lugar onde tudo se passa, onde se descobrem paixões, onde se convive enfim Sintra é o local de refúgio de muitos e onde são vividas muitas emoções.



quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Eurico, o Presbítero - de Alexandre Herculano


Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, nascido em Lisboa em 1810 e faleceu em Santarém no ano de 1877, foi escritor, historiador, jornalista e um poeta Português.
Este Poeta Portugês tal como Almeida Garrett, é considerado o introdutor do romantismo em Portugal, desenvolvendo os temas da discordância do homem com a sociedade.
Herculano, numa carta escrita a Garrett, confessou ser o seu mais íntimo e querido desejo ”ver-se entre quatro serras, dispondo de algumas leiras próprias, umas botas grosseiras e um chapéu de Braga. “Em 1844 escreveu o romance histórico “Eurico, o Presbítero”, este livro fala sobre o respeito do fim do Império Godo, e também da conquista dos muçulmanos que teriam avançado pela maior parte da Península Ibérica.
“Eurico, o Presbítero”, é uma história de amor, passada em Espanha no século VIII, entre Eurico e Hermengarda, após combater, Eurico pede a mão de Hermengarda ao Duque de Flávia, mas este recusa.
Eurico, um homem humilde, entregou-se à religião, tornando-se o Presbítero de Cartéia, para tentar esquecer a amada, através das funções religiosas e da composição de poemas e hinos religiosos, no entanto, quando ele descobre que os árabes estão invadindo a Península Ibérica, transforma-se no enigmático Cavaleiro Negro, e de maneira heróica, Eurico, luta em defesa da sua terra e, devido a seu furor, ganha a admiração dos Godos. Quando a vitória parece certa para os Godos, os dois filhos do imperador, traem o seu povo, a fim de ganhar o trono espanhol.
Após o sucedido, o rei dos Godos morre em batalha, enquanto isso, os árabes invadem o Mosteiro da Virgem Dolosa e raptam Hermengarda. Então, Eurico ao saber do acontecimento salva Hermengarda quando um soldado inimigo estava prestes a matá-la.
Hermengarda declara o seu amor por Eurico, mas em vão, Eurico não acredita que esse amor possa concretizar-se, devido às suas crenças religiosas, e revela a verdadeira identidade do Cavaleiro Negro. Depois de saber a verdade, Hermengarda perde a razão e Eurico, ciente de suas obrigações, parte para um combate suicida contra os árabes.

Inquisição no Século XVII

O inicio da Inquisição em POrtugal foi em 1531.
A inquisição em Portugal inicialmente começou por ser uma instituição da Igreja católica, com o objectivo de combater a heresia, heresia essa que se averiguava se os crentes eram realmente fiéis à sua doutrina ou não.
Com o passar do tempo, vários Países vieram a utilizar a inquisição para fazer Tribunais Régios, ou do Estado, com vários fins políticos. A existência de grupos sociais pôs em causa as acções da igreja católica, os "hereges" contestavam e duvidavam de vários argumentos e de verdades que eram apresentados pela igreja, os "hereges" quebravam a fidelidade para com as Igrejas, contestando aquilo que era considerado verdadeiro.
A inquisição no século XVII era uma espécie de um tribunal que tinha como finalidade a punição dos "infiés", muitas vezes estes eram sacrificados e queimados.
Ao longo do tempo o abuso do poder na inquisição fez com que os papas se organizassem para acabar com a inquisição, mas devido aos motins esta continuou a existir em Portugal.
A inquisição acabou em Portugal em 1821

"Menina e Moça" de Bernardim Ribeiro

“Menina e Moça”, é uma inacabada obra de Bernardim Ribeiro contém 3 edições. A 1ª edição, em 1554, é editada como a "História de Menina e Moça", em Ferrara, e pelo seu exilado judeu português Abraão Usque*.
A 2ª edição, como Saudades, é uma edição eborense de 1557, de André de Burgos e contém um prolongamento. Já a 3ª edição, esta foi editada com base na 1ª edição, em Colónia, por Arnold Birckman, dois anos após da anterior (2ª edição).
Novela sentimental, contém uma porção da novela de cavalaria e de romance pastoril, esta foi influenciada por Boccaccio, entre outros autores italianos Renascentistas. Aceita-se como uma procura de um novo género do romance, com intenção de ultrapassar as fronteiras do país e servindo assim de modelo a outras obras de referência, este mesmo romance sendo inacabada e editada depois de sua morte, não teve assim equivalente na literatura clássica portuguesa. Mesmo assim o autor não deixa de ter a sua importância na literatura medieval.
As obras de Bernardino Ribeiro realçam sempre o tema da infelicidade amorosa. Para além disso há um traço que se considera autobiográfico nas suas obras, deduz-se que fosse natural de Torrão (Alcácer do Sal) e de acordo com determinadas suposições, pensa-se que terá morrido antes de 1557.
Para além da novela "Menina e Moça" Bernardim escreveu também doze diminutas poesias inseridas no Cancioneiro Geral e três composições em verso (o vilancete Pera tudo houve remédio, a cantiga Pensando-vos estou, filha e o romance de Avalor), cinco éclogas, a sextina Ontem pôs-se o sol e a noute, o romance Ao longo de ua ribeira, duas cantigas e outras composições.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Memória ao Conservatório Real

Frei Luís de Sousa é toda uma história caracterizada pela simplicidade de uma história trágica antiga.
A tragédia desta história reconhece-se pela representação severa, apaixonada, enérgica, natural e todo o espírito cristianismo seu característico.
Garrett diz que não dá o nome de tragédia à sua obra, pois não tem uma estrutura ideal para ser considerada como tal, mas pela forma assemelha-se a um drama, daí a sua designação.
O enredo, que não segue cronologicamente os factos, inspirado na vida do escritor seiscentista.
São evidentes marcas do romantismo como a religiosidade e a morte e diz-nos que é uma obra carregada de angústia e sofrimento.
Garret descreve um reconhecimento, mais uma das características do texto dramático, a identificação do Romeiro (D. João de Portugal).
Garrett escreveu em prosa, pois não queria outro ritmo que não esse a ser deduzido pela forma harmoniosa e suave de Frei Luís de Sousa.
Salienta que num século democrático como o de então, o que se fizer é pelo e com o povo. O povo sendo povo, quer verdade.
A obra Frei Luís de Sousa foi inspirada na Memória do Sr. Bispo de Viseu, D. Francisco Alexandre Lobo e Frei António da Encarnação.

Discurso Politico.

Senhor Presidente,
Senhores Deputados

No dia 19 de Junho do ano 2000, o mundo, e em especial a Europa, tomava conhecimento de um drama humano terrível: cinquenta e oito pessoas oriundas da China tinham sido encontradas mortas por asfixia dentro de um camião frigorífico que tentava entrar no Reino Unido. A tragédia destes cidadãos chineses colocou de forma pungente perante a opinião pública europeia a questão essencial, que é a da violação gravíssima dos direitos fundamentais ligada ao tráfico criminoso de pessoas, o que choca e repugna a consciência humanista europeia. Importa retirar uma primeira lição deste dramático acontecimento - a ligação entre direitos dos imigrantes e os direitos fundamentais da pessoa humana é uma primeira dimensão que devemos ter em conta em matéria de política migratória. Os inquéritos que se seguiram a esta descoberta macabra permitiram reconstituir a trajectória destes imigrantes que nunca o chegaram a ser. Antes de tentarem a passagem para o Reino Unido, eles tinham sido repelidos nas fronteiras de outros países da União Europeia.
Este facto ilustra uma segunda realidade: a existência de uma fronteira comum cada vez mais vasta - a fronteira da Alemanha é também a de Portugal, como fronteira portuguesa é a da Itália. Aos asfixiados de Dover, juntam-se os muitos afogados que, nas mais anónimas circunstâncias, dão às costas mediterrânicas, pagando com o tributo da própria vida a tentativa de alcançar o «paraíso ali ao lado». E assim se ilustra de forma dramática um terceiro aspecto essencial, que é a principal razão de ser da pressão migratória: o subdesenvolvimento, a pobreza e, em alguns casos, a falta de democracia e de liberdade.
Numerosos estudos, por outro lado, dão conta da necessidade de um significativo fluxo de imigrantes para manter os actuais níveis de desenvolvimento económico na Europa, face ao crescente défice demográfico. Segundo as Nações Unidas, a Itália, por exemplo, precisa de atrair 6 500 imigrantes por ano, por cada milhão de habitantes. Nos próximos 50 anos, Portugal pode confrontar-se com um decréscimo de 17% da sua população actual.
É inegável, ainda, a importância dos emigrantes para os respectivos países de origem. Com as suas remessas, ajudam a equilibrar as balanças de pagamentos e apoiam o rendimento das suas famílias. O factor de progresso e desenvolvimento que os migrantes podem representar quer para os países de origem quer para os de acolhimento é uma quarta dimensão que é essencial ter em conta.
Finalmente, não podemos deixar de sublinhar como as migrações implicam sempre uma relação bilateral entre os Estados e podem constituir-se num factor poderoso de aproximação e de cooperação internacional. Esta é a quinta dimensão que devemos ter presente na formulação da política de imigração.
É precisamente em nome da defesa destes valores que um Governo responsável deve adoptar medidas claras que definam regras transparentes e promovam uma política ajustada à realidade, sem preconceitos nem demagogias fáceis. Importa ter presente que só a regulação dos fluxos migratórios permite a defesa dos direitos dos próprios imigrantes.